Tarifas dos EUA, Milho e Futuro do Agronegócio: Paulo Molinari Analisa o Segundo Semestre
O agronegócio brasileiro vive um momento de grandes expectativas, com cenários internacionais que impactam diretamente as commodities nacionais. Para analisar o que o segundo semestre reserva para o setor, o economista Paulo Molinari, figura respeitada no agronegócio nacional, conversou com o jornalista Betto Rossatti, em sua visita a diretoria da CAMISC em Mariópolis.
Molinari não hesita em afirmar que 2025 é um ano "bastante diferente, com muitas nuances em todas as variáveis que podem afetar os mercados de forma bem agressiva". A polêmica entre Estados Unidos e Brasil, com as tarifas impostas que vigorarão a partir de 1º de agosto, é um dos pontos cruciais de sua análise.
"Da forma que nós estamos vendo a postura brasileira, não vemos chance nenhuma de reversão desse quadro no curto prazo", avalia Molinari. Ele destaca a diferença de postura em relação à Argentina, que negocia acordos comerciais com tarifa zero, enquanto o Brasil, segundo ele, negocia "muito mal". O economista atribui as tarifas americanas à postura brasileira em relação aos BRICS e à China, Rússia e Índia, além de discursos que vão "contra o dólar". "Não é possível que alguém venha falar contra o dólar e os Estados Unidos fiquem quietos. Os Estados Unidos deu a sua resposta imediatamente", pontua.
Impactos das Tarifas no Agronegócio Brasileiro
Os efeitos das tarifas impostas pelos EUA devem ser sentidos imediatamente em produtos-chave do agronegócio brasileiro. A carne bovina, que tinha o mercado americano como o segundo maior para o Brasil, será duramente impactada. "Nós vamos ter que derivar essa carne para outros mercados que pagam muito menos", explica Molinari, prevendo uma mudança no ambiente do boi e da carne bovina, com possíveis reduções de preço.
O café também sofrerá, já que o mercado americano é o maior para o produto brasileiro e Nova Iorque dita os preços. "O café do Brasil vai custar 50% mais caro que o americano", projeta, o que pode levar a um encalhe da oferta interna.
Produtos de menor escala, mas de grande impacto regional, como a tilápia - da qual o Paraná é o maior exportador - e o mel, também serão afetados. "O Paraná sofre muito com isso, porque o Paraná é um grande exportador de carne, é um grande exportador de tilápia, é o maior. E isso vai impactar na economia do Paraná e na economia brasileira", alerta Molinari.
O Risco da Sobre-Oferta e a importância da exportação
Molinari alerta para uma visão simplista do consumidor que pode imaginar que a menor exportação resultará em preços mais baixos internamente. "No primeiro momento, você tem um estoque que era exportável, esse estoque se vira para outros mercados, se não conseguir virar para outros mercados, vira para o mercado interno. Você tem um impacto pontual, de uma oferta melhor interna", explica.
Contudo, a longo prazo, o cenário é desastroso. "Um produtor, sem ter onde colocar sua mercadoria, sem ter preço, sem cobrir custo de produção, o que ele vai fazer na ponta produtiva? Ele vai reduzir a produção", afirma. Essa redução de produção leva a uma curva de alta de preços no futuro e pode "desmantelar essa cadeia produtiva", levando anos para ser recuperada.
O cenário do milho e o "Produto dos Próximos 10 Anos"
Sobre a super safra de milho, Molinari classifica a pressão baixista de preços como "natural" e "sazonal". Não apenas o Brasil, mas Argentina, Ucrânia e Estados Unidos (com a maior safra da história) estão colhendo volumes significativos. "É natural que o mercado se encaixe naquilo que ele precisa para escoar esse volume adicional, que é a exportação", diz.
Com mais de 40 milhões de toneladas de milho a serem exportadas este ano, Molinari enfatiza a necessidade de escoamento para evitar o encalhe nos armazéns e a pressão de vendas com a chegada da safra de soja em fevereiro.
O economista conclui com uma projeção otimista para o cereal: "O milho é o produto dos próximos 10 anos, não é a soja." Ele cita o crescimento da demanda global e nacional, impulsionado por empresas de etanol, ressaltando que o milho não pode ser deixado de lado, principalmente para a safra de verão.
Paulo Molinari, com mais de três décadas de experiência no mercado do agronegócio brasileiro, trouxe uma análise profunda sobre os desafios e oportunidades que se apresentam ao setor em sua visita a sede da CAMISC e conversa com nossa diretoria.